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PCC-R: como calcular e interpretar no ABFW

A fórmula, o que conta como erro, um exemplo resolvido passo a passo e as faixas de gravidade usadas na clínica e na pesquisa brasileira.

Publicado em 26/10/2026Leitura de 7 minutosCom referências no fim
Resposta curta: o PCC-R (Porcentagem de Consoantes Corretas – Revisada) é o número de consoantes produzidas corretamente dividido pelo total de consoantes-alvo, vezes 100. Diferente do PCC original, só omissões e substituições contam como erro; distorções contam como acerto. O resultado é lido nas faixas de Shriberg e Kwiatkowski: acima de 85% leve, 65–85% levemente-moderado, 50–65% moderadamente-grave e abaixo de 50% grave.

O que é o PCC e o PCC-R

O PCC (Percentage of Consonants Correct) foi proposto por Shriberg e Kwiatkowski em 1982 como uma forma objetiva de medir a gravidade do transtorno fonológico: em vez de só "leve" ou "grave" pela impressão do avaliador, um número a partir da fala da criança.

Em 1997, Shriberg e colaboradores publicaram extensões do índice. A mais usada é o PCC-R, que deixa de contar as distorções como erro. A ideia é que a distorção (um /s/ produzido com a língua entre os dentes, por exemplo) mantém o contraste entre os sons e pesa menos na inteligibilidade do que trocar ou apagar uma consoante. Por isso o PCC-R é indicado para comparar crianças de idades diferentes e acompanhar a evolução.

Fórmula e o que conta como erro

PCC-R = (consoantes corretas ÷ total de consoantes-alvo) × 100
Produção da consoantePCC (1982)PCC-R (1997)
CorretaAcertoAcerto
Omissão (ex.: "pato" → [ˈpa.o])ErroErro
Substituição (ex.: "casa" → [ˈta.za])ErroErro
Distorção (ex.: /s/ interdental)ErroAcerto

Consequência prática: na mesma amostra, o PCC-R é sempre igual ou maior que o PCC. Ao registrar no prontuário, deixe claro qual dos dois você calculou.

Regras de contagem

As regras abaixo seguem a descrição usada por Wertzner, Amaro e Teramoto (2005), que adaptaram o procedimento original ao português brasileiro:

Grave a amostra. Transcrever de ouvido durante a avaliação é a maior fonte de divergência. Com a gravação, você pode reouvir as consoantes duvidosas e outro avaliador pode conferir.

Exemplo resolvido

Uma criança de 5 anos nomeou as figuras da prova. Somando todas as palavras válidas, a amostra tem 60 consoantes-alvo. Na transcrição você marcou:

PCCPCC-R
Erros contados4 + 7 + 3 = 144 + 7 = 11
Consoantes corretas60 − 14 = 4660 − 11 = 49
Cálculo46 ÷ 60 × 10049 ÷ 60 × 100
Resultado76,7%81,7%
FaixaLevemente-moderadoLevemente-moderado

Repare que as duas medidas caíram na mesma faixa, mas a diferença de 5 pontos importa quando você compara com a próxima avaliação: use sempre a mesma medida.

Faixas de gravidade

As faixas foram propostas por Shriberg e Kwiatkowski (1982) para o PCC e são usadas como referência em estudos brasileiros com o ABFW:

Porcentagem de consoantes corretasGravidade
Acima de 85%Leve
De 65% a 85%Levemente-moderado
De 50% a 65%Moderadamente-grave
Abaixo de 50%Grave

O número não fecha o diagnóstico sozinho. No estudo de Wertzner e colaboradoras (2005), o PCC foi comparado com o julgamento perceptivo de fonoaudiólogas; os dois caminham juntos, mas a decisão clínica considera também a idade da criança, os processos fonológicos presentes, a inteligibilidade e o impacto na comunicação.

Usando com o ABFW

O ABFW – Teste de Linguagem Infantil (Andrade, Befi-Lopes, Fernandes e Wertzner) avalia fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. A parte de fonologia, de Haydée Wertzner, tem duas provas:

O PCC-R pode ser calculado por prova ou com as duas juntas. Registre qual foi a base e mantenha a mesma escolha nas reavaliações. A análise dos processos fonológicos (o que a criança faz no lugar do som-alvo) continua sendo feita pela folha de análise do próprio ABFW; o PCC-R resume a gravidade, não descreve o padrão.

Atividade de nomeação guiada do OiClinic: a criança vê a figura, fala o nome e a fala é gravada
Nomeação guiada no OiClinic: a criança fala o nome da figura e a fala fica gravada para a fono reouvir e conferir a transcrição.

PCC-R para acompanhar a evolução

O índice é mais útil como série do que como número isolado. Algumas práticas que ajudam:

PCC-R calculado a partir da fala gravada

No OiClinic, a criança nomeia as figuras de um carrossel, cada palavra é gravada e transcrita, e você revisa palavra por palavra (acerto, distorção, substituição ou omissão) antes de o PCC-R ser calculado. O resultado vai para o prontuário com a evolução, junto com anamneses de fono, análise acústica de voz e exercícios em casa com a sua voz.

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Dúvidas frequentes

Qual a diferença entre PCC e PCC-R?
No PCC original, omissões, substituições e distorções contam como erro. No PCC-R (revisado), só omissões e substituições contam como erro; as distorções são consideradas acertos. Por isso o PCC-R costuma ser igual ou maior que o PCC da mesma amostra.
Como se calcula o PCC-R?
Divida o número de consoantes produzidas corretamente pelo total de consoantes-alvo da amostra e multiplique por 100. No PCC-R, as consoantes distorcidas entram como corretas; omissões e substituições entram como erradas.
Quais são as faixas de gravidade do PCC?
Shriberg e Kwiatkowski (1982) propuseram: acima de 85% leve; de 65% a 85% levemente-moderado; de 50% a 65% moderadamente-grave; abaixo de 50% grave. Estudos brasileiros com o ABFW usam essas faixas como referência.
Que provas do ABFW usar para calcular o PCC-R?
Estudos brasileiros calculam o índice a partir das duas provas do teste de fonologia do ABFW: nomeação de figuras e imitação de palavras, separadamente ou juntas. O importante é repetir sempre a mesma prova para comparar a evolução.

Referências

  1. Shriberg LD, Kwiatkowski J. Phonological disorders III: a procedure for assessing severity of involvement. Journal of Speech and Hearing Disorders. 1982;47(3):256-270. doi:10.1044/jshd.4703.256.
  2. Shriberg LD, Austin D, Lewis BA, McSweeny JL, Wilson DL. The percentage of consonants correct (PCC) metric: extensions and reliability data. Journal of Speech, Language, and Hearing Research. 1997;40(4):708-722. PDF no Waisman Center (Univ. de Wisconsin).
  3. Wertzner HF, Amaro L, Teramoto SS. Gravidade do distúrbio fonológico: julgamento perceptivo e porcentagem de consoantes corretas. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2005;17(2). Texto completo no SciELO.
  4. Andrade CRF, Befi-Lopes DM, Fernandes FDM, Wertzner HF. ABFW: teste de linguagem infantil nas áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. 2ª ed. Barueri: Pró-Fono; 2004.

Este artigo é informativo e não substitui o manual do ABFW nem a formação clínica em avaliação fonológica.