O que é o PCC e o PCC-R
O PCC (Percentage of Consonants Correct) foi proposto por Shriberg e Kwiatkowski em 1982 como uma forma objetiva de medir a gravidade do transtorno fonológico: em vez de só "leve" ou "grave" pela impressão do avaliador, um número a partir da fala da criança.
Em 1997, Shriberg e colaboradores publicaram extensões do índice. A mais usada é o PCC-R, que deixa de contar as distorções como erro. A ideia é que a distorção (um /s/ produzido com a língua entre os dentes, por exemplo) mantém o contraste entre os sons e pesa menos na inteligibilidade do que trocar ou apagar uma consoante. Por isso o PCC-R é indicado para comparar crianças de idades diferentes e acompanhar a evolução.
Fórmula e o que conta como erro
| Produção da consoante | PCC (1982) | PCC-R (1997) |
|---|---|---|
| Correta | Acerto | Acerto |
| Omissão (ex.: "pato" → [ˈpa.o]) | Erro | Erro |
| Substituição (ex.: "casa" → [ˈta.za]) | Erro | Erro |
| Distorção (ex.: /s/ interdental) | Erro | Acerto |
Consequência prática: na mesma amostra, o PCC-R é sempre igual ou maior que o PCC. Ao registrar no prontuário, deixe claro qual dos dois você calculou.
Regras de contagem
As regras abaixo seguem a descrição usada por Wertzner, Amaro e Teramoto (2005), que adaptaram o procedimento original ao português brasileiro:
- Conte só as consoantes que a criança pretendia produzir (as consoantes-alvo da palavra).
- Fora da contagem: sílabas repetidas, palavras parciais ou ininteligíveis e consoantes de palavras que a criança não produziu.
- Acréscimo de consoante antes de vogal também não entra na contagem.
- Som duvidoso, quando você não tem certeza do que ouviu, conta como erro.
- Variante regional, alofone e junção intencional de palavras contam como acerto. Um /t/ africado em "tia" no Rio de Janeiro não é erro.
Exemplo resolvido
Uma criança de 5 anos nomeou as figuras da prova. Somando todas as palavras válidas, a amostra tem 60 consoantes-alvo. Na transcrição você marcou:
- 4 omissões
- 7 substituições
- 3 distorções
| PCC | PCC-R | |
|---|---|---|
| Erros contados | 4 + 7 + 3 = 14 | 4 + 7 = 11 |
| Consoantes corretas | 60 − 14 = 46 | 60 − 11 = 49 |
| Cálculo | 46 ÷ 60 × 100 | 49 ÷ 60 × 100 |
| Resultado | 76,7% | 81,7% |
| Faixa | Levemente-moderado | Levemente-moderado |
Repare que as duas medidas caíram na mesma faixa, mas a diferença de 5 pontos importa quando você compara com a próxima avaliação: use sempre a mesma medida.
Faixas de gravidade
As faixas foram propostas por Shriberg e Kwiatkowski (1982) para o PCC e são usadas como referência em estudos brasileiros com o ABFW:
| Porcentagem de consoantes corretas | Gravidade |
|---|---|
| Acima de 85% | Leve |
| De 65% a 85% | Levemente-moderado |
| De 50% a 65% | Moderadamente-grave |
| Abaixo de 50% | Grave |
O número não fecha o diagnóstico sozinho. No estudo de Wertzner e colaboradoras (2005), o PCC foi comparado com o julgamento perceptivo de fonoaudiólogas; os dois caminham juntos, mas a decisão clínica considera também a idade da criança, os processos fonológicos presentes, a inteligibilidade e o impacto na comunicação.
Usando com o ABFW
O ABFW – Teste de Linguagem Infantil (Andrade, Befi-Lopes, Fernandes e Wertzner) avalia fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. A parte de fonologia, de Haydée Wertzner, tem duas provas:
- Nomeação: a criança diz o nome de figuras. Mostra a fala mais próxima da espontânea.
- Imitação: a criança repete palavras ditas pelo avaliador. Ajuda a separar o que ela não consegue produzir do que ainda não usa espontaneamente.
O PCC-R pode ser calculado por prova ou com as duas juntas. Registre qual foi a base e mantenha a mesma escolha nas reavaliações. A análise dos processos fonológicos (o que a criança faz no lugar do som-alvo) continua sendo feita pela folha de análise do próprio ABFW; o PCC-R resume a gravidade, não descreve o padrão.
PCC-R para acompanhar a evolução
O índice é mais útil como série do que como número isolado. Algumas práticas que ajudam:
- Mesmo corpus: reavalie com as mesmas palavras ou a mesma prova.
- Intervalo combinado: por exemplo, a cada 8 a 10 sessões ou ao fim de cada ciclo de objetivos.
- Gráfico no prontuário: pais entendem melhor "subiu de 68% para 81%" do que uma lista de processos.
- Junto com os objetivos: se o alvo da fase foi /r/ em onset, confira também se aquele som específico melhorou, não só o total.
PCC-R calculado a partir da fala gravada
No OiClinic, a criança nomeia as figuras de um carrossel, cada palavra é gravada e transcrita, e você revisa palavra por palavra (acerto, distorção, substituição ou omissão) antes de o PCC-R ser calculado. O resultado vai para o prontuário com a evolução, junto com anamneses de fono, análise acústica de voz e exercícios em casa com a sua voz.
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Dúvidas frequentes
Qual a diferença entre PCC e PCC-R?
Como se calcula o PCC-R?
Quais são as faixas de gravidade do PCC?
Que provas do ABFW usar para calcular o PCC-R?
Referências
- Shriberg LD, Kwiatkowski J. Phonological disorders III: a procedure for assessing severity of involvement. Journal of Speech and Hearing Disorders. 1982;47(3):256-270. doi:10.1044/jshd.4703.256.
- Shriberg LD, Austin D, Lewis BA, McSweeny JL, Wilson DL. The percentage of consonants correct (PCC) metric: extensions and reliability data. Journal of Speech, Language, and Hearing Research. 1997;40(4):708-722. PDF no Waisman Center (Univ. de Wisconsin).
- Wertzner HF, Amaro L, Teramoto SS. Gravidade do distúrbio fonológico: julgamento perceptivo e porcentagem de consoantes corretas. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2005;17(2). Texto completo no SciELO.
- Andrade CRF, Befi-Lopes DM, Fernandes FDM, Wertzner HF. ABFW: teste de linguagem infantil nas áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. 2ª ed. Barueri: Pró-Fono; 2004.
Este artigo é informativo e não substitui o manual do ABFW nem a formação clínica em avaliação fonológica.
